Transcrição
Helinä Rautavaara e Mestre Waldemar (1964)
A viajante e colecionadora finlandesa Helinä Rautavaara gravou Mestre Waldemar no primeiro semestre de 1964, na Liberdade, em Salvador. Primeiro uma conversa curta, depois Waldemar canta ladainhas e corridos no berimbau: tirados de folhetos de cordel, sobre Pedro Mineiro, Vilela e Lampião, misturados com versos conhecidos de Pastinha e de outros.
Encontrei essa gravação há um tempo, mas não achei em lugar nenhum uma transcrição fiel. Então sentei e fiz uma. Aqui está o que Waldemar fala e canta, em português e traduzido. Onde não tive certeza de uma palavra, comparei com gravações e coletâneas mais antigas, sobretudo com a gravação do próprio Waldemar de 1951. Os dois corridos do final ainda faltam.

- YouTube: Mestre Waldemar recorded by Helinä Rautavaara 1964 (Capoeira Archives)
- capoeirahistory.com: Helinä Rautavaara’s Living Collections
A gravação
Helinä Rautavaara
Waldemar quem?
Mestre Waldemar
Waldemar Rodrigues da Paixão
Helinä Rautavaara
Waldemar da Paixão ou Waldemar da Liberdade?
Mestre Waldemar
Eh, Waldemar do Pero Vaz
Entra o berimbau, Waldemar canta ladainhas.
Iê, ela tem um dente de ouro
Ladainha
Ela tem um dente de ouroEla tem um dente de ouro,Foi eu quem mandei botarEu vou rogar uma pragaPro dente se quebrarPorque Dela eu não me alembro,E não quero me alembrarDaquelas horas amarguradas, ô iaiáCom ela eu conversavaNa beira de uma praiaE um bonito luarEla sempre me jurando,Que a outro não amavaEu vim da Ilha de MaréJogar em Santa RitaDuas coisas nesse mundoQue meu o coração palpitaE um berimbau vozeiroE uma mulher bonitaO senhor amigo meuVeja bem o meu cantarQuem é dono não ciúmaQuem não é quer ciumarQuem não pode com mandingaNão carrega patuáQuem não pode não intimaDeixa quem pode intimarSe não conhece BesouroNão atiça o MangangáCamaradinho
Riachão tava cantando
Ladainha
Riachão tava cantandoRiachão tava cantando, o meu bemNa cidade do AçuQuando apareceu o negroDa espécie do urubuChamando RiachãoPra vir cantar um marteloE Riachão arrespondeu:“Eu não estou cantandoCom negro desconhecidoQue pode ser cativoE andar aqui fugidoIsso é dar cauda a nambuEntrada a nego enxerido”Ai o diabo respondeu:“Eu sou livre como ventoA minha linguagem é nobreSou um dos mais ilustradosQue o sol neste mundo cobreEu nasci dentro da grandezaNão sai de raça pobre”Riachão ele perguntou:“Você disse que tem ciênciaDá-me explicaçãoDe onde formada a chuva?De que estado ela vem?Se é criada aqui por pertoOu nos lugares além?Ou nos lugares além?”O Diabo arrespondeu:“A água tá no estado líquidoPor meio de abaixamentoQue há temperatura,Vem o resfriamentoEssa água é condensada,Ajudada pelo ventoOnde depois tem essa chuvaToda a Terra ensopar,Por meio da rotação evaporaçãoTorna ao espaço voltar,Tem uma corrente atmosféricaDe um a montanha elevada”Iê, é mandingueiro
Torpedeiro Piauí
Ladainha
Torpedeiro PiauíIê governadorSe eu fosse governadorSe governei essa BahiaSete e meia da tarde, ô meu bemO Itapa não saíaNão vá se meter a piqueLá nas águas do JapãoO telegrama vem da noiteNovidade na BahiaMarinheiro absolutoChegou pintando arreliaPrenderam Pedro MineiroDentro da SecretariaPara dar depoimentoDaquilo que não sabiaO senhor amigo meuVeja bem o meu falarQuem é dono não ciúmaQuem não é quer ciumarEu me chamo WaldemarMas não nego meu naturalQuem me der também apanhaEu juro, medo não háQuem não pode com mandingaNão carrega patuáQuem não pode não intimaDeixa quem pode intimarCamaradinha
Ê, Santo Amaro
Corrido
Ê, Santo AmaroVou ver Lampião na moitaVou ver Lampião, já vou
O valente Vilela
Ladainha
Iê!Senhores, peço licençaSenhores, peço licença,Para contar uma históriaO valente Vilela, ô meu bemTrago sempre na memóriaÉ que lutou quinze anosSempre alcançando vitóriaMorava na Serra TortaEsse homem de perigoCombateu muito sargentoEle já tinha vencidoAli tinha um capitão,Um sujeito muito ousadoDisse: “Eu vou na Serra TortaTrago Vilela amarrado”No outro dia bem cedoMarcharam para o lugarOnde morava Vilela,O povo foi ensinarChegou lá o capitãoMandou a casa cercarCercaram ali a casaFicaram de prontidão“Vilela, abre a porta, ô meu bemPor ordem do capitão!Você hoje sai daí,Direitinho para a prisão”Vilela tava em casaSem nada disso saberDisse que vocês vão se embora“Não venham me aborrecerResponda-me, soldado,Se veio matar ou morrer?”“Não vim matar nem morrerTá enganado, sujeitoPor ordem do delegado,Por ordem do juiz de direitoVocê hoje me dá contaDas mortes que já tem feito”Camaradinha
Mestre Waldemar
Este ABC de Vilela, eu tirei pra Capoeira Angola em três cantigas. Por quê? Ela é muito longo. Essa história de Vilela pertence ao Ceará. Que ele era filho de Ceará. Ele é um grande valentão lá do Ceará, morava na Serra Torta. Eu lendo este livro moderno… moderninho… gostei do ABC das proezas. Então inventei de dar pra Capoeira Angola. Então dividi em três partes. Aonde cantei esta de amostra, leva.
Um ABC é um cordel cujas estrofes começam, uma após a outra, com as letras do alfabeto.
Mulé rendeira
Ladainha
Ô iaiá, mulé rendáTu me ensina a fazer rendaQue eu te ensino a jogarO jogo da capoeira, ô meu bemÉ melhor do que rendaMenina de Vila BelaNão tem mais ocupaçãoA sua vida é na janelaDando bola pro LampiãoLampião desceu a serraDeu um baile em CajazeiraBotou as moça formosaPra cantar mulé rendeiraOlha lá, mulé rendeiraOlha lá, mulé rendáTu me ensina a fazer rendaEu ensino a jogarCamaradinho
Camugerê
Corrido
Ainda faltaLetra ainda não transcrita.
Valei-me, chora seu dono
Corrido
Ainda faltaLetra ainda não transcrita.